Ah, Alice! Eu bem sabia desde o início que essa sua teimosia em flutuar te levaria até aí. Aquela atitude sempre pacífica diante dos fatos, aquela mania de perdoar aos santos e aos impuros, aquela insuportável auréola crescendo a seu redor. A energia pura emanando e fortalecendo a aura violeta. Ah, quantas vezes foi preciso dizer, em vão, que o mundo não é de algodão e que país das maravilhas não existe? O mundo, Alice, tem pedras, e elas machucam de vez em quando. Elas às vezes te fazem cair. Não, eu não sou assim pessimista, você bem sabe. Mas viver só na fantasia é perigoso. Você agora pode ver. Agora você está aí, presa em seu labirinto, sem saber se come o bolo ou bebe o suco. Às vezes cresce, e amadurece como jabuticabas no verão. Mas de repente fraqueja e o medo te expõe, então você chora rios e navega na solidão. Ah, Alice! Você nunca teve medo do desconhecido. Mas olha, isso hoje é grande risco. Não para nós, de sangue aventureiro, mas para os outros a preocupação pesa demais, menina. Eles, que não vivem como a gente a liberdade de caminhos novos, temem! E por isso eu te peço fortuitamente um pouco mais de juízo em seus devaneios. Uma trégua para respirar ar puro e real. A realidade é inconveniente mas necessária em certos períodos. Diminua de vez em quando os seus chás da tarde, que é pra não perder a cabeça - a sua e a dos outros - e não se iludir com o coelho. Aquela bebida do chapeleiro maluco te força ao delírio, minha doce criança. E a fumaça de mato incandescente da lagarta Clodovil do cogumelo, ah, ela não me engana! Aquilo ali, minha princesa, alucina. E por isso mesmo é fascinante e te convence. O paraíso fantástico para onde é levada é estrada sem volta se você não se cuidar. A mente alucinada desiste da realidade. Moderadamente, viver te faz bem. Em excesso, a vida derruba e você cai no precipício sem fim. É aí, na queda, que chega o coelho e te apressa a viver. Que nada! Não se deixe enganar. Ele se chama tempo. E a vida, a vida deve seguir seu curso sem corredeiras, como um minguado rio de degelo das montanhas nevadas. Quando você começar a ver sorrisos demais, Alice, e também gatos listrados e dentes no ar, gargalhadas flutuantes, pare! Oh. Que chá que nada! Aquele líquido poderoso que te fez achar a saída para a estrada iluminada quando esteve trancafiada na casinha pequenina tinha nome. Rá rá rá. Lembra a sensação de lentidão quando ouvia as conversas do mundo lá atrás da porta minúscula, parecendo uma vitrola a 45 RPM? E a impressão de estar em uma daquelas casas de espelho, ora aumentando os pés e encolhendo o corpo, ora desenvolvendo excessivamente a cabeça e diminuindo as pernas? Quanta ingenuidade você leva consigo ainda, Alice. E eles, os personagens do país maravilhoso, eles estão aí pra te levar. Eles sabem de você, sabem do seu coração puro. Você é presa fácil. Não seja boba! As cartas foram distribuídas e o jogo já começou. Prepare-se, Alice. Chegou a hora. Comece a jogar. Não espere pela rainha de Copas para ganhar a partida e seguir viagem. Acorde para o mundo real antes que anoiteça. Cresça. Sozinha. A Dinah ainda arranha seu rosto para te trazer à tona. Abra os olhos. É sua chance. Você tem exatos 3 segundos. Um. Dois. Três. Alice, você agora está no país da alucinação. Porque uma dose sempre é bem vinda para viver.
Finalmente esse texto é publicado!!!
ResponderExcluirE ele ficou perfeito!
Valeu a pena todo o tempo de revisão flor..
bjs
ah, shit!!!
ResponderExcluireu estava sem computador...
eu tinha q ser o 1º...
vou quebrar a larissa
CLOSE YOUR EYES
ResponderExcluir"Mas viver só na fantasia é perigoso"
ResponderExcluirisso faz muito sentido.
belíssimo texto
Lindo texto...
ResponderExcluirEu eu aqui, por coincidência, lendo Alice no País das Maravilhas.
Lindo texto...
ResponderExcluirEu eu aqui, por coincidência, lendo Alice no País das Maravilhas.