domingo, 24 de janeiro de 2010

Sonho Desfeito

Ela contou numa emoção sua lembrança de infância assim que viu a camiseta desenhada, cheia de pequenas bailarininhas: "Acho que tenho um trauma de infância. Quando era pequena, morria de vontade de fazer balé, era meu sonho! Mas minha mãe não me colocava, nunca tinha dinheiro! O meu maior desejo era chegar na escola com as pontas dos dedos pocadas, esfoladas e com band-aid, igual as outras menininhas que eu via com os pés machucados, aqueles dedinhos ralados de tanto usar sapatilha com gesso na ponta". Eu ouvia em silêncio. E do meu silêncio contemplava, sorrindo, num passado bem próximo, a carinha infantil, a menininha olhando com tristeza os pezinhos das coleguinhas, aquela tristeza desejosa e frágil, desamparada, típica das crianças. Nesse instante, então, me deu vontade de pegar aquela moça no colo e levá-la, com sapatilha e tudo, pra realizar seu sonho num salão qualquer, repleto de bailarinas, saias de filó e música... * Texto para Natália Ribeiro. ** Imagem por Mariana em: http://maryinventamoda.blogspot.com/

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma xícara (e meia) de café

Em Santa Cruz de La Sierra e San Fernando Del Valle de Catamarca, café é ópio. Em São Raimundo das Mangabeiras, café é ópio. Em Santa Cruz do Capibaribe, café é ópio. Em todos os cantos. Pra vida esquecer, às vezes, das suas insanidades.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lavadeira

Dei um grito fdp Meditei por 3 minutos Corri na chuva 1 Km Catei jabuticaba no pé Fiz bola de sabão no sol Chorei rindo Deitei na grama e me cocei Joguei água nas galinhas Tomei pinga com gelo Saculejei o vestido verde Rolei morro abaixo Peguei carrapato Xinguei o mau humor Cuspi Soltei fogo pelas ventas Fiz bico, bufei Fiz cara de palhaço Ranquei mato do jardim da praça Deitei no banco e cochilei Andei descalça na estrada de terra Chutei areia do mar Joguei conversinha fora na esquina Não fingi gostar de alguém Nadei, nadei, engoli água Deixei o cabelo embaraçar Deixei o sol me queimar E o picolé derreter na roupa Quebrei a corda do violão Comi cinco mangas bitelas* Tomei banho de mangueira Ouvi uma música 29 vezes Cantei alto casa afora Dancei sozinha pela sala Pulei na cacunda** do meu irmão Contei estrelas caídas do céu Contei carneiros pra dormir Lutei boxe e capoeira Acabei com a caixa de bombom Atravessei o rio a pé Me perdi no cafezal Comi uma melancia inteira Pedi demissão Destratei a gente falsa Me joguei na poça de lama Me descuidei Exagerei Lavei a alma

* Bitelo era palavra usada demais pelo meu irmão Felipe quando pegava aquelas jabuticabas das maiores lá em cima do pé que ficava no nosso quintal. Ele era o escalador oficial da jabuticabeira, ele pequeno de cachinhos, anjinho sem asa. ** Cacunda é palavra usada muito no interior. É palavra que ouvi infância inteira. Cacunda é o mesmo que costas/pescoço/ombro, sabe? Essa região que a gente pode pular e muntar cavalinho, e alguém nos segura pelos joelhos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Leve-me



Acordei hoje tão leve
Que nem pássaro avoando

Como se de noite, na cama
Anjos me pusessem asas
Serafins colassem penas
Ou palhaços de circo prendessem 
Meu vestido 
Em bolhas de hélio

Como se avião virasse
Ou em cesto de balão acordasse
Como se nuvem de gotas fosse

Acordei sorrindo pro céu azul
Olhando pro sol
Com vontades de Ícaro
Sonho de borboleta

Como se asas tivesse
De parapente voasse
De repente João de Barro me tornasse

Acordei sem chuva
Com leveza de flocos de algodão
Pensamentos de fada

Como se de noite, na cama
Um anjo caído, tristonho
Colasse em meu corpo
Pluma branca ou púrpura
Tirada do meu travesseiro

E acordada continuei leve
Sem corpo e sem chão
Alma pura, alma apenas
Sem duras penas
Energia e mais nada

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Guardado

Uma vez, era bem pequena, dessas de andar de calcinha pelas ruas ainda. E de cachinhos negros. Então caí da escada de três degraus da frente de casa e quebrei o dente. Chorei. Fiquei rindo torto e sem graça por um tempão infinito, até aparecer uma fada maluca e me deixar banguela. E acho que é por isso que até hoje tenho medo de rir sem guardar o sorriso com as mãos.