sábado, 8 de outubro de 2011

Historinha do Flamengo

Eu sei que começou assim: meu pai - o Luiz, era novinho e foi estudar em Rive. Escola agrotécnica. Rive, naquela época, não tinha rádio. Eu acho que não tinha. Porque a vó Magdalena me disse que toda vez que o Luiz voltava pra casa, nos finais de semana, a primeira coisa que fazia era perguntar: - mãe, de quanto ficou o jogo do Flamengo? A vó Magdalena, que não gostava de usar só um sentido pra saber das coisas, precisou aprender a só "ouvir" uma narração de futebol pra agradar ao filho mais velho. Vivia ouvindo jogo de Flamengo pra saber na ponta da língua os fatos e contar pro Luiz logo que ele apontava lá na porteira. Daí pra frente, até hoje, quando chego na casa dela, a primeira coisa que eu escuto é o barulhinho de rádio. Vou perguntar a ela se ainda é o mesmo da época do Flamengo. Sei que até hoje o Luiz é Flamengo, e desde aquela época a vó Magdalena também é. E a maior parte da família seguiu o exemplo. E quando o Flamengo joga, lá em casa é a maior gritaria, ainda mais quando o Felipe vem.
Eu sei que continuou assim: meu irmão - o Felipe, era mais velho quando foi estudar em Viçosa do que o Luiz quando foi pra Rive. Viçosa nessa época já tem rádio e televisão. Quando ele vem a cada mês ele não pergunta pra Mariangela - a minha mãe, o placar dos jogos. Mas ele ainda tem mania, aprendida com o meu pai e a vó Magdalena, de ficar horas a fio ouvindo o jogo do Flamengo naquele rádio vermelho do Paraguay, caindo aos pedaços, que ele ganhou quando criança. E as mulheres da casa não acham muita graça, nem eu, nem minha irmã - a Marina, nem minha mãe. Mas o Felipe e o Luiz acham. O Luiz por causa do saudosismo e o Felipe por herança. Eles só escutam. E gostam. E agora, sabendo que ouvir o jogo é uma tradição familiar, vai ficar mais fácil pras mulheres da casa respeitarem o gosto dos dois.
* Texto para os dois homens lá de casa, meus dois amores. E também para a vó Magdalena, tão querida, pela paciência com o rádio. E para o Flamengo, que eu aprendi a gostar por causa dessa história antiga.

4 comentários:

  1. Mariangela Grillo Fassarella9 de outubro de 2011 17:54

    Fefê, que coisa linda, quanta sensibilidade. Eu tô corando emocionada. Você é demais. Mariangela.

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  2. Fêêê!!Muito legal!Que bom que você saiu flamenguista também!! Continue sempre usando esse seu talento para comover e divertir a gente. Parabéns!! Beijos

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  3. Meu pai vive com um rádinho de pilha grudado na orelha ouvindo jogo do flamengo. Não sei se ele acha mais fácil ligar o rádio e ouvir do que procurar na TV, mas ele só assiste se eu ou a mãe chamar dizendo que tá passando..rs

    bjo!

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  4. Quantas e quantas vezes quando pequeno eu e meu irmão ficavamos ao lado de meu pai para ouvir o mengão jogar em seu "motorádio" que ele tem até hoje... Agora acompanhamos pela tv, e a paixão pelo mais querido é mesma que "nos deixava surdo para apenas ouvir as vozes do motorádio", e agora além de "surdos", ficamos "cegos em frente a tv" e ver apenas o Mengão jogar...

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