terça-feira, 2 de junho de 2009

Anjo Nato



Outro dia nasceu
Um anjo Renato
Por natureza:
Anjo Nato
Carpinteiro Nato
Conversador Nato
Motorista Renato
Bailarino Nato
Passarinheiro Nato
Por ser anjo Nato
Renato renasceu
O coração imenso
Não cabia no peito
Pediu mais espaço
E Deus atendeu
Voou com as asas
De pássaro cantor
A auréola luminosa
Guiou seu caminho
Sentou-se na nuvem
Azul celeste
Foi contar pra Deus
As coisas da Terra
* Texto escrito em dezembro de 2008 à Renato Grillo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A Dona Inah


Todos os dias ela almoça no mesmo restaurante e senta-se no mesmo lugar, lendo seu costumeiro jornal de notícias. Ela tem cabelos muito brancos e fará 97 anos daqui uns dias. É leonina. Anda sempre bem arrumada, combinando saia e sapatos, e leva consigo uma bolsinha colorida à tiracolo. Ah, um dia contou-nos, a mim e à minha amiga, sua história: tinha dois filhos. No dia do casamento de seu filho mais novo, o mais velho, que morava pro Centro Oeste do país, estava a caminho quando acidentalmente viajou para o céu. Ah, o contraste que a vida de vez em quando coloca na vida das pessoas. A extrema oposição de céu x inferno. Um filho casando-se e outro indo embora. Disse a dona Inah: "Se existe inferno, ele é aqui. Não há como ser em outro lugar. Não há como existir coisa pior..." E enquanto dizia estas palavras, lia concentradamente seu jornal e dizia também: "Não sai nada de bom nessas folhas, só coisa ruim, assalto, morte, desastre, tiros... " Não disse em tom de reclamação, e sim com certa tristeza pelo rumo que o mundo tomou. Ao que estava também coberta de razão. Ela olhou-nos, em dado momento, e disse, diante de nossa ainda presente juventude: "Um conselho de quem já viveu bastante: não fiquem velhas!" E sorria o seu riso de quem muito viveu, muito amou e sofreu, ainda cheia de doçura para dar e visão clara diante dos fatos da vida. Disse ainda a respeito da falta de respeito que há hoje em dia: "Meu pai, quando eu era convidada para pular o carnaval na praia, não me liberava dizendo ser pecado. E o que não diria ele hoje, diante dos acontecimentos a cada dia mais escandalosos?" Despedimo-nos e seguimos sob seus votos de felicidade. Ela era doce. Ela, que não escutava o que a gente dizia, e ainda assim travou longo diálogo e foi muito esperta em suas colocações. E dizia assim, enquanto nos afastávamos: "Ah, eu não escuto, não consigo escutar, logo eu que gosto tanto de conversar..."

domingo, 14 de dezembro de 2008

Pedacinhos...

E sobre o coração partido dele, acho que eu vou dizer: eu tenho um band-aid, isso te ajuda?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Achismo


"Acho que no fundo o coração é bobo. Se perde no primeiro olhar, faz perder o fio do equilíbrio, perde a hora e a razão e acaba por se perder na primeira esquina, embriagado pela insensatez do amor..."

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Café Forte

De tanto beber café

Um dia inda viro preta
Dessas de lata d'água na cabeça
E dois filho no cangote
Dessas nega de tôca de lenço
Trouxa de roupa embá'do braço
Levando a filharada pro banho de rio
Cantarolando
Batendo roupa nas pedra
Acompanhando o recital:
"Arlequim arlequim dorado
Que nasceu no campo sem sê semeado"
Viro mulata de zói doído, cansado, aflito
Carregado de simplicidade
Nega de cabelo alvoroçado, grande, cheio
Até o quadril
Cabelo embolado e macio até onde dá
Eu, de tanto beber café
Ganho sangue moreno, ardido
A liberdade de andar no sol
A pele queimada, o suor
Um dia, de beber café
Viro preta véia de cachimbo nos beiço
Viro a vó Joaquina de história pra contar
E um dia, andando na estrada
Se alguém me chamar "ô preta"
Com brilho no zói eu me viro
Levando um sorriso na boca
Exagerada de rancar pedaço
Orgulho pingando de dentro de mim
E digo pro mundo, meu nêgo
Que preta eu sou, preta de café
Nunca mais bebo leite pra não clarear
Só bebo você todo dia
Pra noite ganhar mais pretura
Que ocê, meu preto, é meu café mais forte
E por você eu fico preta até sumir na escuridão