sábado, 17 de março de 2012

Aula de Costura

Ísis, boneca de pano
Lhe abri um lado 
E coloquei
Um coração alinhavado
Amontoado de papel
Retalho
Fiapo e algodão
Ver se ele bate

sábado, 29 de outubro de 2011

Segredinho

Sabe? De todas as suas manias, a que eu gosto mais é essa que você tem de escrever tudo tão certinho, tão direitinho, melhor que dicionário.

sábado, 8 de outubro de 2011

Historinha do Flamengo

Eu sei que começou assim: meu pai - o Luiz, era novinho e foi estudar em Rive. Escola agrotécnica. Rive, naquela época, não tinha rádio. Eu acho que não tinha. Porque a vó Magdalena me disse que toda vez que o Luiz voltava pra casa, nos finais de semana, a primeira coisa que fazia era perguntar: - mãe, de quanto ficou o jogo do Flamengo? A vó Magdalena, que não gostava de usar só um sentido pra saber das coisas, precisou aprender a só "ouvir" uma narração de futebol pra agradar ao filho mais velho. Vivia ouvindo jogo de Flamengo pra saber na ponta da língua os fatos e contar pro Luiz logo que ele apontava lá na porteira. Daí pra frente, até hoje, quando chego na casa dela, a primeira coisa que eu escuto é o barulhinho de rádio. Vou perguntar a ela se ainda é o mesmo da época do Flamengo. Sei que até hoje o Luiz é Flamengo, e desde aquela época a vó Magdalena também é. E a maior parte da família seguiu o exemplo. E quando o Flamengo joga, lá em casa é a maior gritaria, ainda mais quando o Felipe vem.
Eu sei que continuou assim: meu irmão - o Felipe, era mais velho quando foi estudar em Viçosa do que o Luiz quando foi pra Rive. Viçosa nessa época já tem rádio e televisão. Quando ele vem a cada mês ele não pergunta pra Mariangela - a minha mãe, o placar dos jogos. Mas ele ainda tem mania, aprendida com o meu pai e a vó Magdalena, de ficar horas a fio ouvindo o jogo do Flamengo naquele rádio vermelho do Paraguay, caindo aos pedaços, que ele ganhou quando criança. E as mulheres da casa não acham muita graça, nem eu, nem minha irmã - a Marina, nem minha mãe. Mas o Felipe e o Luiz acham. O Luiz por causa do saudosismo e o Felipe por herança. Eles só escutam. E gostam. E agora, sabendo que ouvir o jogo é uma tradição familiar, vai ficar mais fácil pras mulheres da casa respeitarem o gosto dos dois.
* Texto para os dois homens lá de casa, meus dois amores. E também para a vó Magdalena, tão querida, pela paciência com o rádio. E para o Flamengo, que eu aprendi a gostar por causa dessa história antiga.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Café Forte


Texto ilustrado! Arte do Ramon e foto do Ernie.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Elas

Aquele sorriso gigante, real, sem pudor, ela dava apenas a si mesma: diante do espelho. Olhava e olhava, mexia, sorria, mirava-se sob todos os possíveis ângulos que um espelho pode criar. A mais ninguém se entregava assim. Só à ela, à sua imagem paradoxal, exótica, vulgar. E experimentava sensações, impactos, de batom carmim ou blush exagerado, de cabelos revoltos ou presos num coque transversal. A gargalhada sempre vinha. Era sempre bem vinda. Os olhos apertavam até virarem dois tracinhos de desenho japonês. Ela não sabia se dividir com ninguém. Mas experimentava a felicidade, pois podia multiplicar-se consigo mesma, virando boneca ou dançarina de noites de lua, camponesa ou fada de asa torta, segundo a ótica daquele vidro refletido. Era uma e era mil. E o sorriso era só pra ela; e era pra todas que ela podia ser sem ser.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Menino Felipe


Ele brincava quieto no quarto, todo concentrado em sua rotineira atividade de desmontar as coisas, carrinhos, relógios, rádios de pilha, bonecos do Paraguai. Dava pra Engenharia desde pequenino. A família estava despreocupada. Então, Felipe sai chorando do quarto ao descobrir o mistério:
- Pai, mãe, o mosquito mordeu meu olho!
Era incompreensível aquele choro. E como era infinito, não sobrava espaço pra investigações. Até Felipe chegar num estágio de calma e apenas fungadas espaçadas, todos estiveram inquietos procurando explicação para mordida de mosquito dentro do olho.
Ele, então, mostrou em seu cantinho de olho aquele orifício por onde saem as lágrimas, para comprovar sua teoria de menino:
- Olha, ele me mordeu, mordeu meu olho! Olha o furinho da mordida!
* Texto para Felipe Fassarella, amor de menino.

Mariana

Como mais velha de toda uma família de primos, ela tinha aquele papel de mãe, e cuidava. Cuidava muito lendo histórias para os menorzinhos. Quando um dia resolveu contar a história da Branca de Neve para a Mariana, tão pequenina, deu choro. A história era assim: "Havia uma bruxa muito má naquele reino. Ela vivia maltratando a Branca de Neve, dizia o tempo todo que ela era muito feia. Certo dia, a bruxa má perguntou a seu espelho..." Choro. Choro sem fim. E perguntas: - Mariana, por quê você está chorando, meu bem? Não está gostando da história? Quer outra? E explicações: - Eu tô chorando porque eu não sou bruxa, eu não quero ser a bruxa! - Mas você não é bruxa, não, você é a Branca de Neve! Ninguém falou que você é a bruxa, coisa mais linda... - Mas você falou, e eu não quero ser a bruxa! Não quero! E mais choro, choro doído, inconsolável! O apelido dela era Ma.
* Texto para Marianinha, que já ouviu pessoalmente essa história e morreu de rir com seus olhinhos apertados.

Persistência

Há dias, muitos dias, ou talvez há meses, existe aqui dentro uma vontade de tomar um banho de água de côco! Só pra saber que gosto tem. E que cheiro. E pra beber bastante água, sem medir, sem parar, até explodir.

Coisas de Maria

Maria Clara queria água. Mariazinha era pequena, de uns três anos, por aí. Não, acho que quatro. E queria água. Foi cantarolando de mãos dadas em seu vestidinho florido cor-de-rosa até a cozinha, onde lhe encheram uma tacinha com água. Maria segurou firme o copo, entrelaçando os dedos ao redor. E paralisou-se, olhos abertos, assustados: - Não quero essa água, quero outra. - Bebe essa, Maria, pode beber, tá gostosa! - Essa não quero, me dá outra água que essa tá cheia de minhocas! Foi preciso entrar na brincadeira, usar a tal psicologia infantil: - Nossa, olha lá quanta minhoca! É mesmo! Mas elas são boazinhas, não vão te fazer nada. E a resposta era a insistência da Maria: - Não quero água de minhoca! Não quero! Eca! Quero água pura! Logo em seguida, a percepção, a explicação e as gargalhadas das duas: o copo meio transparente de plástico deixava entrever os dedinhos fininhos de criança da Maria! 
* Texto feito graças à todo o encantamento e bom humor da Mariazinha. É pra ela!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sonho Desfeito

Ela contou numa emoção sua lembrança de infância assim que viu a camiseta desenhada, cheia de pequenas bailarininhas: "Acho que tenho um trauma de infância. Quando era pequena, morria de vontade de fazer balé, era meu sonho! Mas minha mãe não me colocava, nunca tinha dinheiro! O meu maior desejo era chegar na escola com as pontas dos dedos pocadas, esfoladas e com band-aid, igual as outras menininhas que eu via com os pés machucados, aqueles dedinhos ralados de tanto usar sapatilha com gesso na ponta". Eu ouvia em silêncio. E do meu silêncio contemplava, sorrindo, num passado bem próximo, a carinha infantil, a menininha olhando com tristeza os pezinhos das coleguinhas, aquela tristeza desejosa e frágil, desamparada, típica das crianças. Nesse instante, então, me deu vontade de pegar aquela moça no colo e levá-la, com sapatilha e tudo, pra realizar seu sonho num salão qualquer, repleto de bailarinas, saias de filó e música...
* Texto para Natália Ribeiro.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma xícara (e meia) de café

Em Santa Cruz de La Sierra e San Fernando Del Valle de Catamarca, café é ópio. Em São Raimundo das Mangabeiras, café é ópio. Em Santa Cruz do Capibaribe, café é ópio. Em todos os cantos. Pra vida esquecer, às vezes, das suas insanidades.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lavadeira

Dei um grito fdp
Meditei por 3 minutos
Corri na chuva 1 Km
Catei jabuticaba no pé
Fiz bola de sabão no sol
Chorei rindo
Deitei na grama e me cocei
Joguei água nas galinhas
Tomei pinga com gelo
Saculejei o vestido verde
Rolei morro abaixo
Peguei carrapato
Xinguei o mau humor
Cuspi
Soltei fogo pelas ventas
Fiz bico, bufei
Fiz cara de palhaço
Ranquei mato do jardim da praça
Deitei no banco e cochilei
Andei descalça na estrada de terra
Chutei areia do mar
Joguei conversinha fora na esquina
Não fingi gostar de alguém
Nadei, nadei, engoli água
Deixei o cabelo embaraçar
Deixei o sol me queimar
E o picolé derreter na roupa
Quebrei a corda do violão
Comi cinco mangas bitelas*
Tomei banho de mangueira
Ouvi uma música 29 vezes
Cantei alto casa afora
Dancei sozinha pela sala
Pulei na cacunda** do meu irmão
Contei estrelas caídas do céu
Contei carneiros pra dormir
Lutei boxe e capoeira
Acabei com a caixa de bombom
Atravessei o riacho a pé
Me perdi no cafezal
Comi uma melancia inteira
Pedi demissão
Destratei a gente falsa
Me joguei na poça de lama
Me descuidei
Exagerei
Lavei a alma
* Bitelo era palavra usada demais pelo meu irmão Felipe quando pegava aquelas jabuticabas das maiores lá em cima do pé que ficava no nosso quintal. Ele era o escalador oficial da jabuticabeira, ele pequeno de cachinhos, anjinho sem asa. ** Cacunda é palavra usada muito no interior. É palavra que ouvi infância inteira. Cacunda é o mesmo que costas/pescoço/ombro, sabe? Essa região que a gente pode pular e muntar cavalinho, e alguém nos segura pelos joelhos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Leve-me

Acordei hoje tão leve
Que nem pássaro avoando
Como se de noite, na cama
Anjos me pusessem asas
Serafins colassem penas
Ou palhaços de circo prendessem
Meu vestido
Em bolhas de hélio
Como se avião virasse
Ou em cesto de balão acordasse
Como se nuvem de gotas fosse
Acordei sorrindo pro céu azul
Olhando pro sol
Com vontades de Ícaro
Sonho de borboleta
Como se asas tivesse
De parapente voasse
De repente João de Barro me tornasse
Acordei sem chuva
Com leveza de flocos de algodão 
Pensamentos de fada
Como se de noite, na cama
Um anjo caído, tristonho
Colasse em meu corpo
Pluma branca ou púrpura
Tirada do meu travesseiro
E acordada continuei leve
Sem corpo e sem chão
Alma pura, alma apenas
Sem duras penas
Energia e mais nada

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Guardado

Uma vez, era bem pequena, dessas de andar de calcinha pelas ruas ainda. E de cachinhos negros. Então caí da escada de três degraus da frente de casa e quebrei o dente. Chorei. Fiquei rindo torto e sem graça por um tempão infinito, até aparecer uma fada maluca e me deixar banguela. E acho que é por isso que até hoje tenho medo de rir sem guardar o sorriso com as mãos.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Anjo Nato



Outro dia nasceu
Um anjo Renato
Por natureza:
Anjo Nato
Carpinteiro Nato
Conversador Nato
Motorista Renato
Bailarino Nato
Passarinheiro Nato
Por ser anjo Nato
Renato renasceu
O coração imenso
Não cabia no peito
Pediu mais espaço
E Deus atendeu
Voou com as asas
De pássaro cantor
A auréola luminosa
Guiou seu caminho
Sentou-se na nuvem
Azul celeste
Foi contar pra Deus
As coisas da Terra
* Texto escrito em dezembro de 2008 à Renato Grillo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A Dona Inah


Todos os dias ela almoça no mesmo restaurante e senta-se no mesmo lugar, lendo seu costumeiro jornal de notícias. Ela tem cabelos muito brancos e fará 97 anos daqui uns dias. É leonina. Anda sempre bem arrumada, combinando saia e sapatos, e leva consigo uma bolsinha colorida à tiracolo. Ah, um dia contou-nos, a mim e à minha amiga, sua história: tinha dois filhos. No dia do casamento de seu filho mais novo, o mais velho, que morava pro Centro Oeste do país, estava a caminho quando acidentalmente viajou para o céu. Ah, o contraste que a vida de vez em quando coloca na vida das pessoas. A extrema oposição de céu x inferno. Um filho casando-se e outro indo embora. Disse a dona Inah: "Se existe inferno, ele é aqui. Não há como ser em outro lugar. Não há como existir coisa pior..." E enquanto dizia estas palavras, lia concentradamente seu jornal e dizia também: "Não sai nada de bom nessas folhas, só coisa ruim, assalto, morte, desastre, tiros... " Não disse em tom de reclamação, e sim com certa tristeza pelo rumo que o mundo tomou. Ao que estava também coberta de razão. Ela olhou-nos, em dado momento, e disse, diante de nossa ainda presente juventude: "Um conselho de quem já viveu bastante: não fiquem velhas!" E sorria o seu riso de quem muito viveu, muito amou e sofreu, ainda cheia de doçura para dar e visão clara diante dos fatos da vida. Disse ainda a respeito da falta de respeito que há hoje em dia: "Meu pai, quando eu era convidada para pular o carnaval na praia, não me liberava dizendo ser pecado. E o que não diria ele hoje, diante dos acontecimentos a cada dia mais escandalosos?" Despedimo-nos e seguimos sob seus votos de felicidade. Ela era doce. Ela, que não escutava o que a gente dizia, e ainda assim travou longo diálogo e foi muito esperta em suas colocações. E dizia assim, enquanto nos afastávamos: "Ah, eu não escuto, não consigo escutar, logo eu que gosto tanto de conversar..."

domingo, 14 de dezembro de 2008

Pedacinhos...

E sobre o coração partido dele, acho que eu vou dizer: eu tenho um band-aid, isso te ajuda?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Achismo


"Acho que no fundo o coração é bobo. Se perde no primeiro olhar, faz perder o fio do equilíbrio, perde a hora e a razão e acaba por se perder na primeira esquina, embriagado pela insensatez do amor..."

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Café Forte

De tanto beber café

Um dia inda viro preta
Dessas de lata d'água na cabeça
E dois filho no cangote
Dessas nega de tôca de lenço
Trouxa de roupa embá'do braço
Levando a filharada pro banho de rio
Cantarolando
Batendo roupa nas pedra
Acompanhando o recital:
"Arlequim arlequim dorado
Que nasceu no campo sem sê semeado"
Viro mulata de zói doído, cansado, aflito
Carregado de simplicidade
Nega de cabelo alvoroçado, grande, cheio
Até o quadril
Cabelo embolado e macio até onde dá
Eu, de tanto beber café
Ganho sangue moreno, ardido
A liberdade de andar no sol
A pele queimada, o suor
Um dia, de beber café
Viro preta véia de cachimbo nos beiço
Viro a vó Joaquina de história pra contar
E um dia, andando na estrada
Se alguém me chamar "ô preta"
Com brilho no zói eu me viro
Levando um sorriso na boca
Exagerada de rancar pedaço
Orgulho pingando de dentro de mim
E digo pro mundo, meu nêgo
Que preta eu sou, preta de café
Nunca mais bebo leite pra não clarear
Só bebo você todo dia
Pra noite ganhar mais pretura
Que ocê, meu preto, é meu café mais forte
E por você eu fico preta até sumir na escuridão

domingo, 17 de agosto de 2008

Hai Kai III


Não sou passarinho
Não preciso viver
De migalhas
De amor